Home / Artigos / CELACANTO, você conhece esse peixe?

CELACANTO, você conhece esse peixe?

Em 17/02/2016, tive o privilégio de assistir a uma palestra patrocinada pelo Underwater Explorers Club of Western Australia, um clube de mergulho aqui em Perth (na verdade, em Fremantle, cidadezinha portuária colada a Perth). O apresentador, Johan Boshoff, é um sul-africano atualmente vivendo na Austrália, que por muito tempo foi responsável pelas equipes de mergulho profundo que acabaram filmando o celacanto em seu habitat natural – a mais de 100m de profundidade!

Segue um trecho da chamada para a palestra:

Come and listen to a talk on finding a living Dinosaur on a depth greater than 100 meters.

– Everyone thought they were extinct
– Everyone thought they were a myth
– Everyone thought the fossils could only be seen in books
– And then they were found

Most people think that the Coelacanth was extinct for many years and when a couple of divers started to look for them and found them and it changes the history books.

It was the discovery of the century. Finding a living fossil.

I was part of the Coelacanth expeditions for eight years and the expedition leader for the last 3 years and did many dives past 100 meters before I saw them for the first time.

Many divers died to find them and today people are still risking their life’s to see this amazing living Dinosaur in its natural habitat.

Come and listen to this amazing story how divers change history books and how a fish brought out the best in divers and made enemies for a life time.

Como já tem muita coisa escrita sobre este peixe, fui buscar na internet um bom artigo, e encontrei este aqui, com texto em português de Martha Follain, que transcrevo na íntegra; o site é da Agência de Notícias de Direitos Animais.

[IMG]

Foto: Alberto Fernandez Fernandez/ Creative Commons

O celacanto, “Latimeria chalumna” é a espécie viva de um peixe, encontrado ao longo da costa do Oceano Índico. Está entre as criaturas estudadas pela criptozoologia, cripto (do grego kryptós, é, ón “oculto”) e zoologia (o ramo da ciência que estuda os animais) que é o estudo de criaturas mitológicas, lendárias, hipotéticas, ou de seres presumivelmente extintos. Esse animal já foi considerado extinto: teria sido extinto no Período Cretáceo Superior, há 70 milhões de anos atrás. O celacanto é da era devoniana, cerca de 410 milhões de anos, e teria desaparecido no final do período Cretáceo, quando os dinossauros foram extintos – é um fóssil vivo. Presume-se que ele seja primo do “Eusthenopteron”, ancestral dos anfíbios, répteis e mamíferos. Uma teoria que gera muita controvérsia, pois inclui aí o ser humano. Antes da descoberta desse primeiro exemplar vivo, acreditava-se que o celacanto era um parente próximo do primeiro vertebrado a sair das águas, dando origem a um novo grupo de vertebrados conhecidos como tetrápodes, que inclui os humanos. Essa descoberta causou um alvoroço no mundo inteiro pois esse peixe foi considerado pelos cientistas como sendo uma forma de transição da água para a terra. Alguns estudiosos chegaram a afirmar que o celacanto havia adquirido um mecanismo primordial para deslocamento no solo. Sua característica mais importante é a presença de pares de barbatanas  (peitorais e pélvicas) que se assemelham aos membros dos vertebrados terrestres e se movem da mesma maneira. O celacanto vivo era exatamente igual ao do registo fóssil, e no decorrer dos anos que se seguiram, foram coletados mais de 200 celacantos em diferentes partes do mundo. Ninguém sabe quantos restam, mas estima-se que a população varie de mil a 10 mil indivíduos. Eles testemunharam a conquista da terra pelos vertebrados, viram a ascensão dos anfíbios e répteis, e já eram velhos quando os dinossauros surgiram há cerca de 230 milhões de anos.

O primeiro espécime vivo foi reencontrado por Marjorie Courtenay – Latimer  (1907-2004) em 23 de dezembro de 1938 no litoral da África do Sul, em East London. Na época, Marjorie Courtenay – Latimer era curadora do “East London Natural History Museum”. Ela sempre estava no porto para observar o que os pescadores traziam e fez-se amiga deles. Um desses amigos, o Capitão Hendrick Goosen, no pesqueiro “Nerine”, deixou para ela o fruto de sua pescaria e ela notou um peixe diferente. Ao examinar o conteúdo da pesca, ela encontrou um peixe azulado, com um metro de comprimento, dotado de nadadeiras carnudas que lembravam os membros de vertebrados terrestres. Ela estava diante de uma das mais notáveis descobertas da criptozoologia do século XX. Marjorie tinha em suas mãos um celacanto. O peixe havia sido pescado perto de “Chalumna River”, no Oceano Índico e foi difícil mantê-lo em boas condições, devido à falta de equipamentos de refrigeração. Marjorie Courtenay – Latimer enviou uma carta e um desenho do peixe para o professor J.L.B. Smith, do “Rhodes University”, Grahamstown, que ficou surpreendido ao reconhecer no desenho o celacanto, porque pensava-se  que ele havia sido extinto e estavalistado apenas como um fóssil.O animal apresentava características que poderiam desvendar o processo de transição dos vertebrados do ambiente marinho para o terrestre e tinha parentesco com o primeiro peixe que rastejou para fora d’água e colonizou os continentes.

Antes da descoberta desse primeiro exemplar vivo, acreditava-se que o celacanto era um parente próximo do primeiro vertebrado a sair das águas, dando origem a um novo grupo de vertebrados conhecidos como tetrápodes, que inclui os humanos.

O celacanto seria parte da linhagem evolutiva que deu origem aos tetrápodes, grupo que inclui todos os vertebrados terrestres (anfíbios, répteis, aves e mamíferos). Os peixes pulmonados, como o celacanto, têm um parentesco mais próximo com os tetrápodes.

O celacanto ainda é a melhor explicação como ocorreu a transição dos vertebrados da água para a terra.

[IMG]

Desenho do celacanto feito por Marjorie Courtenay-Latimer.

[IMG]

Marjorie Courtenay-Latimer e o seu celacanto

[IMG]

O Professor JLB Smith com o segundo celacanto – à sua direita o Capitão Eric Hunt

Quatro anos depois, o capitão Eric Hunt desapareceu no mar. Ele nunca foi encontrado.

Em 1997, uma nova espécie de celacanto foi encontrada no arquipélago de “Comoros” por Arnaz Erdmann e seu marido, um estudante de biologia marinha, o estudante de pós-graduação, Mark Erdmann, em sua viagem de lua de mel. Ele viu o celacanto em Sulawesi, de cor marrom, chamado pelos indonésios de rajah laut (“o rei do mar”), recebendo o nome científico de “Latimeria menadoensis”. Nas últimas sete décadas mais 309 indivíduos foram avistados. Espécimes foram encontrados na costa oriental Africana, chegando ao Quênia.

[IMG]

Fotografado por Mark V. Erdmann em julho de 1998. Recebeu o nome científico “Latimeria menadoensis”

[IMG]

Fêmea do celacanto. Tinha 1,78 metros e 98 kg

[IMG]
[IMG]
[IMG]

Fósseis de antigos celacantos podem ser encontrados em todo o mundo, com exceção da Antartida

Os estudos estão apenas no começo, mas o mapeamento do genoma do celacanto tem o potencial para explicar como o primeiro peixe deixou os oceanos e deu origem a todos os vertebrados terrestres. Há um novo capítulo na história extraordinária de um peixe extraordinário. O genoma de uma das duas espécies vivas de celacantos foi sequenciado e mostra que este peixe com uma longa história continua a evoluir, mas muito lentamente, revela um artigo hoje na revista Nature.

Se isso acontecer, um dos maiores mistérios da história da evolução pode ser desvendado.

Infelizmente, atualmente, o celacanto é considerado pela “União Internacional para a Conservação da Natureza” (IUCN) “criticamente ameaçado”.

Novas descobertas apontam que o genoma do celacanto possui informações que podem ajudar a entender melhor a evolução dos tetrápodes.

“Os estudos estão apenas no começo, mas o mapeamento do genoma do celacanto tem o potencial para explicar como o primeiro peixe deixou os oceanos e deu origem a todos os vertebrados terrestres. Se isso acontecer, um dos maiores mistérios da história da evolução pode ser desvendado.”

[IMG]

Celacanto com 1,75 metros e 77 quilos, que foi apanhado em 2001 por pescadores quenianos SIMON MAINA/AFP

“Chris Amemiya, do “Instituto de Investigação Benaroya”, em Seattle, diz que as novidades não acabam aqui: “É o início de muitas análises, em que o celacanto pode ensinar-nos sobre o aparecimento dos vertebrados terrestres.”

Aqui termina o artigo do site ANDA, e continuo com meu relato sobre a apresentação de ontem, 17/02/2016, no Underwater Explorers Club of Western Australia.

Basicamente a apresentação do peixe em si por Johan Boshoff trouxe as informações do artigo na ANDA, acrescidas de alguns detalhes sobre as diversas ocasiões em que se pescou um exemplar pela primeira vez, em 1938, um avistamento (infelizmente sem registro fotográfico ou em vídeo) de um exemplar em um mergulho profundo feito por dois jovens em 1974, seguidos de outras capturas de exemplares por pescadores diversos. A parte realmente interessante da apresentação foi por conta do relato de como as equipes se organizaram, se prepararam e executaram os diversos mergulhos profundos que finalmente resultaram no encontro com o celacanto em seu habitat natural, a mais de 100 metros de profundidade, na costa oriental da África do Sul, quase na fronteira com Moçambique.

A ressaltar, de início, as dificuldades de um mergulho com cilindro a esta profundidade. Como mergulhadores sabem muito bem, existem limites a se respeitar quando se mergulha respirando a mistura do ar atmosférico (21% O2, 78% N2). Com esta composição, o máximo a que se consegue chegar é pouco mais de 50 metros de profundidade (o mergulho autônomo recreativo está limitado a 40 metros). Além disso, é preciso recorrer a uma mistura chamada trimix, onde se usa hélio para substituir parte do nitrogênio e do oxigênio. Isto exige o uso de diversos cilindros no mesmo mergulho (em geral cinco), com misturas específicas para cada faixa de profundidade, na ida e na volta. Ao final, durante a subida, são feitas paradas de descompressão de até 4 horas de duração! O dia típico de mergulho começava às 5 ou 6 da manhã, com a análise de até 50 cilindros que haviam sido carregados na noite anterior (quando se usa misturas de gases, é necessário se analisar a mistura – a composição percentual exata de cada gas – antes de cada mergulho, pois um engano nesta fase pode ser fatal). Em seguida, carregar todo o material para os barcos, a viagem ao ponto de mergulho, a descida até os 100 metros ou mais, os 15 a 20 minutos que se podia ficar lá embaixo a esta profundidade, e depois a subida de volta à superfície. Em função da profundidade, cada mergulhador leva apenas a mistura que ele mesmo vai consumir; não existe o mecanismo de back-up para o parceiro: mergulhadores com cilindros de back-up desciam até a metade da profundidade e aguardavam por ali, assim qualquer emergência aos 100 metros exigia uma subida até quase 50 metros para se recorrer ao back-up! Ao chegar à superfície, retorno à base em terra e a rotina de carga de cilindros e preparação do mergulho do dia seguinte. Esta rotina durava até perto de meia-noite.

Todos os equipamentos utilizados para estes mergulhos tinham que ser especialmente desenvolvidos para aguentar a pressão aos 100 metros. Tipicamente os equipamentos, caixas estanques, lanternas e outros são feitos para resistir à pressão até 60 metros, assim eles tiveram que adaptar tudo para mais 50 metros!

Um detalhe extra para ilustrar as dificuldades destes mergulhos: o local onde se supunha estar o celacanto era um pequeno cânion, na borda da plataforma continental, a pouco mais de 100 metros de profundidade, em meio à correnteza. Não havia como apoitar o barco, assim os mergulhadores eram lançados a cerca de 2km de distância do local estimado, para descer com a correnteza e chegar ao ponto exato, 2km depois e 100m mais abaixo! Se errassem o ponto, tinham que subir e ser recolhidos pelo barco, e isto contando com um tempo de descompressão de algumas horas…

Dificuldades adicionais foram impostas pelo governo sul-africano, quando percebeu que eles tiveram sucesso na busca. Em certo momento foram proibidos de descer a mais de 60 metros, e o governo assumiu a condução das buscas com um submersível que poderia ficar horas por lá. Ficaram afastados da busca por alguns anos, mas finalmente foram liberados para prosseguir no projeto.

Algumas vidas foram perdidas durante esta busca. Os dois mergulhadores que conseguiram filmar o peixe pela primeira vez nunca viram o resultado de seus esforços, pois morreram no retorno à superfície! Outros acabaram morrendo em mergulhos profundos não relacionados ao projeto Celacanto. Mergulhar a esta profundidade é atividade de altíssimo risco e com pouca margem para erros.

Segue, para finalizar, um vídeo divulgado pela National Geographic; reparem na roupa do mergulhador: a 110m de profundidade, sem usar neoprene!

Sobre Walmyr Buzatto

Walmyr Buzatto

Veja Também

Dottyback Diadema / Diadem dottyback

Índice1 Ficha Resumida2 Informações Gerais3 Descrição4 Agressividade Ficha Resumida Nome Popular Dottyback Diadema / Diadem …

6 comments

  1. Artigo simplesmente fantástico. Completamente intrigante! Parabéns Walmyr e Reef Club.

    Consegui parar um pouquinho e ler tudo com calma. É muito legal e uma leitura semi obrigatória pra quem gosta do mundo marinho, natureza e biologia no geral.

  2. Bruno Verpa

    @Walmyr Buzatto, dee uma lida no texto novamente por favor, me parece que algumas partes estão repetidas. De qualquer forma é muito interessante este tipo acontecimento

  3. Bruno Verpa

    Walmy, realmente lendo novamente não achei o que parecia estar repetido…desculpe

Deixe uma resposta

Facebook

css.php