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Aquarismo Cético 1 – Introdução

Você está com problemas em um dos seus corais, identifica uma doença bacteriana, e solicita a amigos aquaristas dicas para lidar com isso. Um primeiro amigo lhe sugere um antibiótico. O segundo, que você pendure uma samambaia ao lado do aquário e, três vezes ao dia, diga olhando para o aquário: “ula, ula, ula”.

No íntimo da minha existência eu esperaria que você desconsiderasse seriamente a segunda dica. Caso contrário, não esqueça de filmar.

Vamos partir do pressuposto, então, que você tenha escolhido o antibiótico, e não foi porque samambaias estão fora de moda desde os anos 80. O raciocínio que você percorreu para a escolha foi algo parecido com o caminho “A” da figura abaixo. Da mesma forma, o raciocínio para romper a hipótese da samambaia foi muito próximo do que está representado em “B”.

Captura de Tela 2016-07-15 às 18.05.19

 

O exemplo acima foi propositalmente trivial e exagerado. Talvez você já tenha se dado conta que:

  1. Existem muito mais variedades de soluções além o uso de um antibiótico e de uma samambaia. Alguns produtos vendidos no mercado do aquarismo estão muito próximos da idéia por trás do antibiótico. Outros, parecem samambaias.
  2. Algumas pessoas acreditariam tranquilamente e sem esforços na hipótese da samambaia, por mais esquisita que ela seja.
  3. Algumas pessoas acreditariam com mais facilidade ainda na hipótese da samambaia se algum expert do aquarismo dissesse: “eu fiz e funcionou aqui”.
  4. Algumas pessoas comprariam uma floricultura de samambaias e ficariam roucos de tanto “ulas” se um expert dissesse: “faço isso há 60 anos, e sempre funcionou”.
  5. Um antibiótico pode fazer tão pouco sentido quanto pendurar uma samambaia e dizer “ula, ula, ula”.
  6. E, o principal: o seu coral pode melhorar com o uso de antibiótico. E com a samambaia também (com ou sem “ula, ula, ula”).

 

Um enfeite de aquário em forma de samambaia poderia, talvez, atuar em uma infecção bacteriana, por efeito placebo. Basta que o coral (e o aquarista) acreditem.

 

Um aquário é um ecossistema essencialmente dinâmico e complexo, e nós, aquaristas, apenas conseguimos controlar e medir uma pequena parte disso. Quando algo foge do normal, nem sempre conseguimos identificar o componente desse ecossistema que saiu dos trilhos e, no vácuo da nossa incapacidade de conhecimento, surgem as mais diversas hipóteses.

Para uma hipótese virar uma certeza, a certeza virar regra, e a regra virar lei, nem sempre é demandado muito tempo.

O culpado é, inclusive, sazonal. Houve épocas em que o bode expiatório era o substrato. Outro que não sai de moda é o sal. E, claro, não podemos esquecer do “olho grande”, que já motivou o uso de figas e pimentas penduradas dentro do sump (juro).

O aquarismo marinho é, de fato, um campo fértil para mitos (1). Entende-se por mitos, nesse nosso caso, crenças que surgem a partir de um relato ou hipótese pessoal, e se alastram mesmo padecendo de fundamento ou comprovação.

O objetivo que pretendo, na publicação de uma série de artigos que começa com essa pequena introdução, é examinar a formação e perpetuação de conhecimento dentro do aquarismo, propondo um exame lógico e pragmático dos acontecimentos e opiniões.

Erros como generalização precipitada, apego à antiguidade, inversão do ônus da prova, apelo à autoridade, dentre outros, serão examinados em sua relação com o aquarismo marinho.

A idéia não é, entretanto, fazer com que o hobby seja visto como uma atividade enfadonhamente científica. Muito menos de que um pensamento cético implique em não acreditar em nada. Não é nada disso.

Mas se um aquarista, ao ler que o dono de um lindo aquário tem um segredo infalível para o sucesso, seja ele qual for, se ele pelo menos questionar a informação desse segredo (e isso é ser cético), aí sim o objetivo será alcançado.

(1) Wijgerde T, Tilstra A. Debunking Aquarium Myths. http://www.advancedaquarist.com/2014/2/myths

Sobre Ledo Daruy

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11 comments

  1. Marcelo Mandra

    Muito boa a iniciativa.

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  2. Léo Cardoso

    muito bom mesmo, Ledo!

    mas vcs hão de convir q alguns mitos criados são extremamente engraçados (rofl)(rofl)

  3. Marcio Vargas

    Boa, Acompanhando. Tudo para ser uma leitura muito interessante. Sabe que aqui em casa a formula magica, e que funcionou, foi simplesmente apagar todos os grupos de aquarismo do whats e parar de ler fóruns (topicos de duvidas)? heheh

  4. Ledo Daruy

    Léo Cardosomuito bom mesmo, Ledo!

    mas vcs hão de convir q alguns mitos criados são extremamente engraçados (rofl)(rofl)

    O meu preferido é o durepoxi. Mas alerta: sem amianto, ok????

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  5. Léo Cardoso
    Marcio Vargas

    Boa, Acompanhando. Tudo para ser uma leitura muito interessante. Sabe que aqui em casa a formula magica, e que funcionou, foi simplesmente apagar todos os grupos de aquarismo do whats e parar de ler fóruns (topicos de duvidas)? heheh

    mas funcionou pra q? pra parar de gastar com samambaia? 😀 😀

  6. Marcio Almeida

    Vou dar uma lida nisso

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  7. Fabio Lyrio

    Eu sou o cara certo que acreditaria fácil em um mito já que sou relativamente principiante em aquarismo marinho. Prefiro me posicionar como ateu, enfim… Ciclagem! Eu fiz igual ciclagem de água doce e… Amoníaco, ativador biológico e foi que foi. Aquario zerado e alguns corais já estão bombando. Medo até de virar praga! Uma boa parte do mito vem da tentativa e erro… Se acerta vira pré requisito, senão…

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  8. Marcio Vargas

    Grande Leo

    Deixei de gastar com Samambaias e outras tranqueiras que tu não acreditaria, e como resultado depois de 3 anos consegui um aquario equilibrado, o resto só o tempo mesmo vai trazer.

    🙂

  9. Marcio Almeida

    É a velha briga entre o empírico e o científico.

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